Estação Mistério


06/10/2009


paradoxos

Na noite dos paradoxos,

A claridade impera

De moço, o bandido se traveste

A água logo se faz vinho

O amor deixa de ser peste

 

As estrelas apagam sem aviso

Sutil defesa é a frieza

Que faz do verso, um inverso.

 

Na noite dos paradoxos,

O carro nos roda

O crime não compensa

Seu corpo vira alma

 

O desejo torna-se pressentimento

O prazer curto se faz jornada

A pintura linda, agora inacabada

Desperta o sofrer intenso

Por uma próxima mirada

 

Na noite dos paradoxos,

Chorar é a maior alegria

O abraço, tortura repentina

A colisão das bocas trêmulas,

Uma loucura furtiva

 

Todo instante é para sempre

Marca indelével na pele

Perfume que não mais se descola

Bebida jamais etérea

Sabor permanentemente temporário

Pudera eu deter o tempo

Pudera eu ter-te entre os dedos

Pudera eu convencer tua alma

Pudera eu matar os certos e errados

E fazer de nosso paradoxo

Uma delícia imortal.

Escrito por Rodolfo Araújo às 11h45
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04/10/2009


aprisionado

Dentro de mim há alguém

Um preso, um selvagem, um negro

Talvez um branco, pálido

Dentro de mim há um amante,

um santo, um profano

Dentro de mim há um andante

Um canalha, mundano.

 

Dentro de mim há um mudo,

Um louco a namorar o suicídio

Uma moça em busca de um idílio

Um senhor já decrépito

Um qualquer falido

Um guerreiro combalido

À bancarrota.

 

Dentro de mim há um bêbado

A cruzar as luzes desta selva

A cochichar com um mendigo sem data

A procurar no calendário do ano passado

Um sinal de futuro.

 

Dentro de mim há uma peste

Um vírus que apaixona e acomete

Toma cada centímetro e enlouquece

Depois foge, em silêncio, vazio

Desperdício, vadio

Dentro de mim há alguém que quer e sabe gritar

Arranha as paredes com a sofreguidão de um padre

Que se descobre no claustro e não se vê fugitivo

Há um brado imenso aprisionado

Há uma palavra cansada do repouso

Há uma letra em fervor

Há uma loucura inconteste,

Um calor.

 

Dentro de mim há um salto no escuro

Uma corredeira sem rumo

Uma mata sem vestígios

Um perfume falecido

Um fiel trovador.

 

Dentro de mim há um impulso que não se contenta

Desejo de loucura

De mastigar a agrura

E correr

E morrer na mais verdadeira aventura

E ter o suspiro último

Numa linda explosão de vida.

Escrito por Rodolfo Araújo às 19h25
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