Esse vazio
que envolve meus gritos
que contém o brado pecador
que silencia o arroubo sofredor
que impõe o vácuo ao amador
que faz desaparecer o calor
que torna indefinida a presença
que cria na ausência a mais insana existência
que projeta nas paredes brancas a anuência
que materializa entre as unhas a indecência
Esse vazio
Essa luta fustigante com o tempo
Esse correr lento de cada pensamento
Essa cínica conversa com a hipocrisia
Esse fervilhante solilóquio com a dor
Esse palpitante desejo de correr
Esse diálogo pérfido com o risco
Esse maldizer constante do destino
Esse caminhar desesperador em des(a)tino
Esse vazio
Essa luz que me foge aos dedos
Essa etérea troca de esperanças
Essa impossibilidade magnética
Esse flerte malvado e impuro
Esse claustro transparente e abafado
Esse inglório lugar acalorado
Essa roupa que pressiona os músculos
Essa bebida já finda na taça
Essa música que toca ao relento
Essa chuva que molha a mim, apenas
Essa sedução infértil
Essa terra arada sem sementes
Esse despedir inclemente
Esse anúncio sórdido do fim
Esse vazio repleto de você
Esse vazio que se perdeu de mim.




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