Estação Mistério


30/09/2009


(vazio)

Esse vazio

que envolve meus gritos

que contém o brado pecador

que silencia o arroubo sofredor

que impõe o vácuo ao amador

que faz desaparecer o calor

que torna indefinida a presença

que cria na ausência a mais insana existência

que projeta nas paredes brancas a anuência

que materializa entre as unhas a indecência

 

Esse vazio

Essa luta fustigante com o tempo

Esse correr lento de cada pensamento

Essa cínica conversa com a hipocrisia

Esse fervilhante solilóquio com a dor

Esse palpitante desejo de correr

Esse diálogo pérfido com o risco

Esse maldizer constante do destino

Esse caminhar desesperador em des(a)tino

 

Esse vazio

Essa luz que me foge aos dedos

Essa etérea troca de esperanças

Essa impossibilidade magnética

Esse flerte malvado e impuro

Esse claustro transparente e abafado

Esse inglório lugar acalorado

Essa roupa que pressiona os músculos

Essa bebida já finda na taça

Essa música que toca ao relento

Essa chuva que molha a mim, apenas

Essa sedução infértil

Essa terra arada sem sementes

Esse despedir inclemente

Esse anúncio sórdido do fim

Esse vazio repleto de você

Esse vazio que se perdeu de mim.

Escrito por Rodolfo Araújo às 17h55
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

29/09/2009


Sim

basta a tua sombra

que me ponho ao chão

uma nota do perfume teu

que me escondo em meu quinhão


morena deserta, por que dizes isso de mim

se mil águas cruzei para te ter tão perto assim

navego no turbilhão dos teus tecidos

flutuo na imensidão dos teus quilates

para ouvir um efêmero sim


espelha o céu a tua boca

persegue-me tal névoa em cada sonho

sussurra-me o que há de mais proibido

encarna em cada parte o medo
                                     e a libido.


semblante meu, desejo tanto

o teu eterno retorno

em espirais, em adornos

em sensuais contornos

eu te bebo

te esqueço

te adormeço e aqueço

para que depois me digas

sim

Escrito por Rodolfo Araújo às 21h33
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

o sexto dia

e então vieram as luzes

borradas pelo vidro embebido de loucura

feito espadas vieram as cruzes

vermelhos os sinais, doçura


caminhos tortuosos teus, meus

curvas que me gritam nos sonhos

oníricas

pesadelo ardente

saliva


rubra a cidade

de vinho, inundada

ébrio o caminhar entrecortado

pelo caos das esquinas

pelo sorriso de quina

pelos sons que nos entregam


denúncia, perigo

rodopiam os músculos serenos

contorcem-se em partitura

delirantes em postura

observam o firmamento


somos efêmeros e invisíveis

famintos, sedentos, risíveis

perdemo-nos no mais próximo horizonte

sem volta

sem ida

num presente, o bastante

num instante lancinante

de flama

de lama

de fim.

Escrito por Rodolfo Araújo às 19h04
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Perfil



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, Homem, de 26 a 35 anos

Histórico