Estação Mistério


31/07/2009


solidão e café

contra a parede:

da forma como essas vozes querem.

maldito uníssono inaudível

de tão misturado que é.


de um lado, jovens em grupelho

atrás, os risos constangidos da recém-traída

à diagonal, um amor deixa de sê-lo

ao meu redor, nada posso fazer


o perfume do café inunda meu casaco

a intacta garrafa de vinho teima em assim ficar

a taça de cristal incólume permanece imóvel

orbitam todos, mas diante de mim, ninguém


onde estão aqueles olhos?

Escrito por Rodolfo Araújo às 22h11
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29/07/2009


a pequena e o mar

veio ao mundo num rompante

embora teime a demorar 

a buscar o meu semblante


murmura poesia, navegante

deixa o tempo passar

erra, fria e estonteante


por mais que o destino encante

o rio curva-se ao contrário

ruma forte, fervilhante


até que um dia, lenta o bastante

por estas bandas irá desaguar

descobrirá da alegria o levante

quando seu rio beijar o mar

Escrito por Rodolfo Araújo às 20h15
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27/07/2009


um dia por aqui

uma gota choca-se contra minha cápsula
e repousa.

sente a lisa superfície também fria

e escorre.

 

são elas muitas, aglomeradas

fundem-se, separam-se, evaporam

procuram sentido no desvario do tempo

e, no caótico frigir do espaço,

silenciam (a) à procura do silêncio

 

de um lado a outro vigiam os olhos

piscam as rubras luzes do vagar

sobressaltos, pessoas, fumaça

amargo é o perfume do ar

 

protegido em minha cápsula de lata

vejo o mundo girar

não sinto o calor, tampouco a carne

refuto o risco de enveredar

 

estático

luto para ficar parado

misturo-me aos muitos e montes

num fingir desesperado

 

extático

sorvo o prazer alheio

de minha cabine impenetrável

de meu medo inconcebível

 

avanço alguns metros

fecha o sinal

a música passa

notícias

 

respiro o fumo alheio

abrir o vidro? Não me atrevo

passam guris e senhoras

jornais e sacolas

chuva-guardas reversos

 

aflora-me a vida em minutos

provo da fruta sólida que me oferece

cuspo ali mesmo, inconsteste

expilo a podridão do diário elixir

 

todosdizemasmesmascoisas

clientesmarcasfinançasnúmeros

metáforas, metonímias perverso-hierárquicas

jogodediálogos monológicos

bobagens a granel na feira ao lado

compro, vendo

compro, vendo

vendo-me.

Escrito por Rodolfo Araújo às 11h30
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