uma gota choca-se contra minha cápsula
e repousa.
sente a lisa superfície também fria
e escorre.
são elas muitas, aglomeradas
fundem-se, separam-se, evaporam
procuram sentido no desvario do tempo
e, no caótico frigir do espaço,
silenciam (a) à procura do silêncio
de um lado a outro vigiam os olhos
piscam as rubras luzes do vagar
sobressaltos, pessoas, fumaça
amargo é o perfume do ar
protegido em minha cápsula de lata
vejo o mundo girar
não sinto o calor, tampouco a carne
refuto o risco de enveredar
estático
luto para ficar parado
misturo-me aos muitos e montes
num fingir desesperado
extático
sorvo o prazer alheio
de minha cabine impenetrável
de meu medo inconcebível
avanço alguns metros
fecha o sinal
a música passa
notícias
respiro o fumo alheio
abrir o vidro? Não me atrevo
passam guris e senhoras
jornais e sacolas
chuva-guardas reversos
aflora-me a vida em minutos
provo da fruta sólida que me oferece
cuspo ali mesmo, inconsteste
expilo a podridão do diário elixir
todosdizemasmesmascoisas
clientesmarcasfinançasnúmeros
metáforas, metonímias perverso-hierárquicas
jogodediálogos monológicos
bobagens a granel na feira ao lado
compro, vendo
compro, vendo
vendo-me.