A PARTIR DE AGORA, OS POSTS SERÃO PUBLICADOS EM NOVO ENDEREÇO: http://atrasdajanela.wordpress.com/
A PARTIR DE AGORA, OS POSTS SERÃO PUBLICADOS EM NOVO ENDEREÇO: http://atrasdajanela.wordpress.com/
dobrava o papel
mãos lépidas
intrépidas
tridimensionavam
o papel
faziam os dedos
mais
que
seu papel
dobravam o previsível
dobravam os sinos
dobravam
obtusa
oblíqua
mente
à guisa da
lente
do povaréu
dos túneis verdes
do borrão-breu
dobrava, calmamente
acariciava o metálico papel
dava-lhe vida
papel com alma
pois, diante dos dedos enrugados,
sorria, ébria, a menina
luz em meio aos olhares
perdidos
do vagão
aponte
adiante
a fronte
afronte
adiante
o passo
aponte
a ponta
a cinza
a ponte
o passo
na ponte
a fronte
compasso
afronte
a ponte
de aço
açoite
devora
a noite
explora
açoite
asas
casas
o rio
debaixo
da ponte
o rio
caminho
o tao
o tal
do rio
sinuoso
o rio
curvo
o corpo
o rio
a curva
do ventre
da ponte
da fronte
o tempo
da têmpora
do pulso
do lusco
do fusco
da noite
da ponte
da luz
ofusco
o músculo
que aperta
a noite
na ponte
contrai
atrai
e trai
na ponte
a noite
as asas
no rio
que some
debaixo
da ponte
no instante
em que dizes
teu nome.
ao céu, apenas os escolhidos?
pode ser, lá no alto
algo modorrento
uma chatice
tortas de mesmice
chás de carolice
carolinas caretas
madeleines de proveta
sexo seco
beijo sem fio
amplexos amarelados
longo pavio
maldade travestida de bonança
teorias lançadas à janela
existência formulada
na lógica das chibatas
o acaso, as pulsões
a hipocrisia, as paixões
o amorfo, entrecortado
o enredo pouco lapidado
a busca distendida
cujo fim já se conhece
não há mais poética prece
que represente salvação
se a resposta derradeira
é um sonoro
cremado
e escavado
não!,
melhor abrir os braços
lançar-se, embriagado,
na rotineira escuridão
Comê-lo
Loucomêlo
Comilança
Lambocomo
Lambilança
Manicôm(i)o
Mordo.
eu como a vontade de comer
a vontade de comer, eu como
à vontade, eu como
comer a vontade
como
comer-te à vontade, eu como
a vontade de comer-te, eu como
como comer-te à vontade
se a vontade de comer-te eu como?
comendo à vontade, como-te
como te comer, a vontade
a vontade de comer-te, como.
O violino toma conta do quarto, dá alguma vida a esta terra arrasada. São livros por toda parte, uma reunião de lembranças frívolas, anotações carcomidas, cheiros dos mais estranhos, sensações reviradas, como entranhas que deveriam, é sério, ficar ali, quietas e silenciosas na paragem intocável da memória.
Não. A poeira sobe, dança com a música e, pois, escapam as reminiscências. As águas calmas da manhã transmutam-se, desenham uma violência prestes a arrebentar nas pedras caso eu pegue o objeto errado, como acabo de fazer.
Exumação. Arrumar um quarto, o escritório, tudo. Agora o cadáver está aqui. Seguro, sorridente, feliz por ter retornado, como se me visse depois de anos na rodoviária com aquela malinha puída.
Um presente. Amarelado, páginas provavelmente amassadas por uma mala, um idioma que não conheço. Hieróglifo. Uma dedicatória indecifrável. Não há prisão no mundo mais arrebatadora. A prisão da incerteza. É melhor saber logo. Prefiro o corte seco da vil objetividade à condenação desértica a essa interminável pergunta. O ponto de interrogação é sinuoso justamente por ser traiçoeiro, assim como as serpentes.
Sabe-se lá que caminho ele tomou, por quantas mãos foi embalado, os raios que pensou até chegar por aqui. Deve ter ouvido muita coisa, eu imagino. Quando sentiu o peso da ponta da caneta – aliás, como seria o tal bolígrafo? – arranhando sua página 3, com certeza percebeu alguma coisa naqueles olhos. Agora, exumado, fica aqui me olhando com essa cara de quem nada vai me dizer. Melancólico. Parece uma ostra.
O não-beijo, o bilhete, o temor. Nem uma palavra sobre esses mistérios que batem asas de morcego agora que eu reabro o livro. Ele e suas páginas carcomidas, feito meu quarto. Amassado como um viajante em silêncio. Testemunha ocular cujo silêncio foi comprado por valor inestimável. Ele deve saber de tudo. Afinal, ele sintetiza tudo. O presente.
Ele vai ficar ali, sozinho, até que me diga alguma coisa. Mínima, uma coisa.
Fiquemos em silêncio, por enquanto.
o seu nome sem rosto delira nestas cartas escritas para um interlocutor moldável aos seus anseios. o egoísmo acorda suas noites em vigília, mas é doce. posso enxergá-la daqui, descendo do carro, sumindo na rua mal iluminada, caminhando sobre um rastro púrpura rotineiramente desenhado depois das suas satisfações. você sempre repete suas táticas. costura a teia tão levemente que mal posso ouvir daqui. da distância. seus olhos, minha inominável, jorram o desejo de berrar no meio da rua todas as suas verdades. despir-se dos eufemismos, assumir a imensidão do seu amor próprio, o esplendor da trêmula estima, a inconsciência louca para tomar as rédeas desse trem que, passa o tempo, aumenta, aumenta, aumenta a velocidade. entra pelas rugas, (des)espera. ouve caetano, vedder, roda feito baiana, engole a cólera na finesse dos saltos imaginários. só quer ser poesia, aflorar, de(s)colar, vibrar os membros e relevos na mesma intensidade que o cérebro ordena e refreia.
eu vejo o seu nome sem rosto nestes seus olhos de curiosidade, tão efêmeros que chegam a soar eternos.
Tenho pouco tempo para dizer neste seu abismo, falésia, hiato, suspiro, suspensão. Atividades paralisadas, ônibus rodando sobre esteiras, metrô em marcha à ré, taxistas em recusa geral, prostitutas castas, tiranos afrouxando a guarda, parteiras em recesso por falta de trabalho, maconheiros correndo dispostos, fisiculturistas em preguiça mundana, boêmios pegando cedo a fila do banco, jornalistas atrás das notícias, internet em sinal intermitente de ocupado, celulares mudos, surdos, cegos, imóveis.
Esperas são belas depois que passam. Malditas compressões entre o passado imutável e o futuro incontrolável. Expectativa e lamento. Vice. Versa.
Esperas são frestas.
Pernas abertas para flores nascerem
ouvidos atentos a outras vozes furtivas
mãos preparadas para relevos não vistos
perfumes inéditos a envolverem o corpo
letras malditas, incêndio do pensamento
versos, telas, projeções
entre as notas, a eloquência do silêncio
que faz a música
o denso vazio que sucede o gole
a fumaça desenhada pela boca
o pedido de misericórdia aos delírios
a celebração da intensidade
o futuro apunhala pelas costas
e arranca das suas entranhas
um longo suspiro
de
prazer.
Nesta casa bucólico-urbana, tracejada de enrolações barrocas, metida a clássica em seus papeis de parede fajutos, colorida com os pigmentos que agradam aos novos ricos, eu espero. É um lugar repulsivo, embora repleto de delícias. Ela anota meu pedido. A roupa negra deixa à mostra apenas o rosto, já que os cabelos, presos, tentam passar aos clientes uma aura de plena assepsia. Logo os cabelos - essas artimanhas reservadas apenas a elas.
Ela preenchia o bloco
rápido
eu alongava o instante ao falar
d
e
v
a
g
a
r
o branco do bloco
as linhas preenchidas
o vazio do tempo
esvaindo-se na inutilidade
meu pedido
diria realmente quais seriam os meus desejos?
o rosto jovem, as olheiras de quem não dorme
ou se droga
ou ambos
ela me lembrava uma outra pessoa
uma desconhecida em forma de conhecida
um desejo que as fundia
memória sobreposta naquela roupa folgada
curvilínea, curta
ela sorria, imitava o tom de voz da sósia
desconhecida
eu fingia conhecer a desconhecida
queria dizer à desconhecida
tudo que nela conhecia
pela semelhança
e a distância
inventava mais pedidos
distendia o tempo
as letras
as folhas viradas do bloco
os dentes brancos, cansados e simpáticos
sumiram, num estalo.
Próximo.
emoldura meu rosto a janela carcomida
refletidos nos olhos o anil
a brincar de ritmos com nuvens
soprar ventos carbônicos
brilhar em um degradê
delator das horas
o mesmo segundo que me empurra à revelia
passa despercebido por sua mesa
giramos juntos na imensa dança circular
que torna a existência somente
repetitivarepetitivarepetitivarepetitiva
elipses
imóvel
involuntárias pulsões
inspiração controlada
sulcos impávidos na face
pupilas congeladas no muro
meu caro horizonte de concreto
sobrou-me o céu em comum a nós dois
único ponto a contemplar e reconhecer-me
em um partilhado ambiente
tal como a mesa já tirada
o parque derrubado
a cidade devastada
a cama desfeita
o telefone quebrado
relaxo
para abrir a porta
e dançar
sobre mais curvas anônimas
suores inodoros
seios nada ambiciosos
ventres irreconhecíveis
quadris malcriados
logo o céu desaparece
e a escuridão de outros delírios
quebra, na brevidade dos instantes,
a réstia azul que nos faz
iguais.
toda morte noturna acaba
nela prolongo, estico o tempo
brincando com os segundos como se fossem fogo
certo da chamusca, louco pela busca
a linha é reta, asfáltica, aponta para baixo
caminho feito equilibrista entre as rachaduras
simbólicas aberturas do inconsciente
lacunas de noites mal dormidas
ou de um dolce far niente
assoviando canções em reflexo
misturando os luminosos em neon
aspirando as nuvens turvas das casas
devolvendo passos rápidos
ao tempo que me empurra
para baixo.
eu nunca vi seu rosto em sonhos
lembro-me, apenas, da pinta
vizinha do olho
embora nunca tivessem falado
a pinta, gota de tinta ao acaso
naquela obra um tanto inatingível
passível de vislumbrar na doce amplidão
da embriaguez
em linha reta, para baixo
o caminho expande-se, traga-me
traga-me a ela, eu suplico
entre as cervejas, espumas sorridentes
aparece-me a dita
estática, profana, charmosa, noctívaga
nada como uma pinta facial
mais erótica que um seio à mostra
confessionária como beata enganosa
suplicante por alguém de coragem
minha linha, reta e para baixo, cessa
sobra-me olhar para aquelas mesas
o dinheiro rareia nos bolsos
uma camisa melhor naquele momento
penso
penso
penso
mergulho num pensar delirante
beijo as chamas do inferno mais próximo
entro
a pinta, meu big bang, o graal de todos os cristos
o leitmotif das óperas vindouras
o esperanto da beleza humana
a pinta, vizinha muda do olho
tão gritante em sua discrição
de vestir negro no dia e na noite
a pinta, cada vez mais próxima,
ao encontro das mãos trêmulas
a pinta
poema concreto em pele branca
erro divino, ode ao wabi-sabi
relevo mínimo onde me acabaria
desapareceria
como eu e ela fizemos
no torpor
na escuridão.
linha obtusa, eletrocardiogramática
contorno de um céu impuro, de tosse
densa névoa que seu corpo recobre
acompanha, em sombra laranja, o caminhar
o charuto perde a brasa
maridos trôpegos a apagarem
o fogo das putas
senhoras a cerrar a bíblia
e varrer da memória
as poeiras do tempo nefasto
Mulheres interrompem o coito do sonho vigilante
crianças perdem-se na virtualidade do dia
o feirante adormece, perfume de fruta
assovia lento o taxista enquanto cruza
a moçadossonhosdaquelesegundo.
o gari acarinha o meio-fio
dança sua fosforescência anônima
cruza o executivo em sua farda
prestes a ser abocanhada pelo amigo da loja
os ônibus, as motos, os carros
fumam-se como famintos viciados
bailam à beira do asfalto
junto a estudantes pelegos
e outros tantos largados
borrada pela míope noite
vai-se embora a menina
nos seus xadrezes encadernados
a buscar, no semblante do vácuo urbano
um pingo de poesia.
Não há nada mais persecutório do que um nome
Breve conjunto de letras a carregar responsabilidade imensa
Deve ser musical, escorrer pela língua facilmente
Curto e grosso
Entre os primeiros na chamada escolar
Suficientemente belo para não ser chacota
Direto o bastante para quem vê o rosto
e ele nota.
O nome, ao sintetizar um ser,
Poliniza-se de significados
Amplia-se num espectro de desventuras e sabores
Odores e amores
Memórias
Dores
Persegue, escancara as pernas de passados
Abre os baús mórbidos do já sepultado
Estampa nos olhos as envelhecidas cenas
Há o risco: por todas as partes
Num livro aberto
Numa conversa no ponto de ônibus
No celular, por engano
Lá ele pode estar
Num rascunho,
Numa lousa mal apagada
Num louco a gritar pela rua
Num muro grafitado
Numa peça, num filme
Onde não se pode esperar
Vem o nome, este perseguidor
Este algoz, desnuda as neuras que pensamos curar
Põe abaixo a mais exitosa terapia
E nos joga à sarjeta
Para beber, brindar e saudar
A involuntária faculdade de amar
como branca nuvem, efêmera
lépida ao sabor de um vento-repente
sádica lufada extemporânea
gélido sopro ao pé do ouvido
ar centrifugado em turbinas
decola, preciso, no ar
e lá se vai minha alva
com quem viveria há dois séculos
por quem destilaria ópios e venenos
para morrer em francês, lírico,
sereno
a obtusidade do olho oculto
pela curva dos cabelos sobre a face
encobre indeléveis verdades
destitui dos tempos e espaços
toda base
brota do infértil concreto
da aragem de cinzas
dos silêncios de sepulcro
das provocações ardilosas
e suspiros-enigmas, fugidios
eis que o tempo, ainda que exíguo
capaz de prolongar os mais desérticos sofreres
traz-me a branca nuvem, poética, letrada
flutuante nas notas que dedilha
inconstante nos arroubos de falácias
estonteante
a cada passo
que dá
parou todos os sóis
fez do dia larga vigília
sonhos de carne e osso
ao som das folheadas
à luz dos perfumes,
da cafeína
dos dedos (cheios)
de anéis
dos dedos (cheios)
de dedos
horizonte arenoso, abraços frios
vem ao meu destino em sépia a branca nuvem
ela vem rápida, sagaz, travestida de menina
traz a sombra imensa e, ao mesmo tempo,
a saudade
densa
e a nuvem vai
em turbilhões, turbinas
lá vai a menina
inesperada
de volta
e ficam aqui: poetas, atores, desamores
a esperar fixamente, na vil e profunda distância
a volta.


Meu perfil
BRASIL, Sudeste, Homem, de 26 a 35 anos