Ondas de calor
Seu olhar escorrega sobre a capa do livro. Perde-se no próprio impulso. Renega a vontade, o querer. Já posso sentir daqui o calor. Acha que pinto seu rosto, sua empáfia cresce, meu desprezo aumenta.
Open source doméstico
< pioneiras em > CÓDIGO ABERTO < são >
as DONASDECASA
< /afinal >
receitas de bolo vagam pelos cantos
sempre
e cada prato é, mesmo assim,
diferente
dada a magia singular de cada
< mão >
Efêmera
Apenas mais uma noite
uma Lua sob a qual possa
resumir tudo: xingamentos
punhaladas, socos e beijos
Todos os regalos possíveis:
jóias, champagne, arranhões
cremes
Uma noite apenas, para estar
entre seus afazeres, pernas
e passos
misturar-me a seus olhos em
tom de ultimato
devorar-lhe os lábios imune
de qualquer pecado
sugar-lhe a alma como um
andarilho em desespero
sucumbir ao seu olor
fundir-me a seu leito
arrancar-lhe as roupas
entranhar-me na carne
beber-te na fonte
destituir-me do passado no
presente
para que não existas
amanhã
Memórias I
A boca me deste, radiante
lilás, espessa, cintilante
ofereceste-a como - da fruta - o instante
a envolver sementes com corpo e polpa
Derramaste o líquido pelo vidro aberto
concedeste altiva o néctar
entregaste zelosa o verbo
imperativo: jamais parar
Tu eras flor, curva, mosaico
tontura, varanda, paisagem
ofegar, transpirar, liquefazer
Livro, garrafa, estilhaço
e perfume
Mirada
Branca, água
juntas
mistura
pisco
fim
Binário destino
ser tantos, tão poucamente
em cada carcaça
existir nos recantos, em tantos
ser um pouco de mim pelas frestas dos minutos
mas tão pouco a ponto de nada ser
olhar o trem que passa e borra o quadro
de tão veloz, feito a vida,
mal começada e já no fim da subida
melhor não enxergar a ladeira
suportar o caminho, com todas as máscaras
falas, tons e amarelados sorrisos
mutante a cada minuto
refém do invisível
refugiado das cores da infância
tão nubladas quando, ontem, abri a janela
tragar copos e fumaças
trilhar a lâmina de abismos
lançar-se ao delicioso não-sabido
deixar-se tocar pelo escuro horizonte não-vivido
não é sim
quando se deseja viver
Binário destino
ser tantos, tão poucamente
em cada carcaça
existir nos recantos, em tantos
ser um pouco de mim pelas frestas dos minutos
mas tão pouco a ponto de nada ser
olhar o trem que passa e borra o quadro
de tão veloz, feito a vida,
mal começada e já no fim da subida
melhor não enxergar a ladeira
suportar a subida, com todas as máscaras
falas, tons e amarelados sorrisos
mutante a cada minuto
refém do invisível
refugiado das cores da infância
tão nubladas quando, ontem, abri a janela
tragar copos e fumaças
trilhar a lâmina de abismos
lançar-se ao delicioso não-sabido
deixar-se tocar pelo escuro horizonte não-vivido
não é sim
quando se deseja viver
Uma noite em Buenos Aires
Cruzamentos
de vozes, olhares, notas
dança avizinha-se lenta
melancolicamente sangra em carne
suspira dentro dos ouvidos o gemido endêmico
da ternura
boníssimos ares, mistura de rosa e prata
multicolorido amor que se espalha
mar alaranjado
espraiado
misturado
sol
idificado
vida minha que emerge
urge, urra
adormece atrás das frestas
enormes portas e paredes
a guarnecer o pecado exterior
no interior de infindo horizonte
a residir em nossos ais.
Seus olhos
altíssimas escarpas,
grandeza do monte
lembram-me sem palavras
da minha pequenez
No entanto, submerso no ar em que flutuo
debruço-me, voador, no azul cintilante
é céu a duelar com a neve
na claridade cortante e austral
é a meridional presença de Neruda
a tornar qualquer poesia sobrenatural
o perder-se inevitável
oculto em teus olhos
amplos, muito mais
que tudo
visto de cima
ou de canto qualquer.
Santiago
santiago, gélida em suas agudas pontas,
dorme
silêncio, eco de história manchada
cheira sangue
carcomida arquitetura
atrai e assusta
sob a epiderme das tintas descascadas
procuro sua verdade
em resposta, palavra alguma
sobra uma réstia de sorriso na cidade
que cresce, acelera-se
mas se esquece
de mostrar os dentes
brancos como a neve
da pontiaguda cidade
da seca cidade
que tem sede
de tudo.
envulva-me
en
gula-me
com a carne
rubra
a respirar n r u a
e v r s.
na glande
osidade
eloqüente do farol
onde, ao alto, treme a flâmula ereta
a arranhar a costa que recebe
espumas maritimamente quentes
enovelam-se as florestas
castanhamente ruivas
entrelinhas
conduzem
ao entrepernas
e nelas
digo "fim"
Noctívaga
pesa a
pálpebra
cerram-se as imagens
à mercê dos cílios
em conjunto, uma
g r a d e
areia nos globos
insônia
cheiro de amônia
cafeína
minha covarde heroína
corrói, expande, alerta
dormir, desprezível arte
de negar a noite
Entrelábios
perder-se neste azul
tão possível
como audível é
o som a despertar
meus centímetros
poros em riste
ciosos
receosos
não mais
hiato
somente o vácuo
entre as bocas
dormentes
de luta, de sono
perene
fractais I
debruçada sobre o silêncio
sorri, profética
sintetiza o caos nos cachos
concentra nos fios o fulgor
na pele, a alvura do dia
nos azuis, o céu que há
invertida
angula seus vértices
prevenida
per
vertida
pela poesia entranhada
em tuas extremidades
róseas
do teu vértice negro
vertem rios salomônicos
grandiloqüência fulgurante
perfume, algoz do azedume
de outrora
altiva, enigma silencioso
signo maior da amplidão
do reflexo, do sexo, do amplexo
brotam os fins do hiato de ontem
germinam os filhos de fogo
e ar
inquebrantável, nem a ironia
dobra teu dorso
nem as mais laminosas palavras
cortam levemente o fio resistente
impávida, cala-se a alma
incólume mantém-se o ventre
soslaio irretocável da mulher que urge
cria nos bairros e ladeiras arroubos de olhares
infla-se o populacho, flutua a elite
à espera de quem lhe ponha o dedo
em riste
encontra meu olhar o teu desprezo
perco-te na noite em meio às flamas
nasce à epiderme da rocha mais pungente
o verso uno, que acende
fractais II
o complexo frêmito do encontro
luta corpórea de signos translúcidos
tecidos unos absorvem as luzes
rubro é o palco onde se misturam
as alquimias perdidas
emerge a ardência
à margem da candura
quebra-se o véu petrificado
da ternura
sopra ao vento o laranja-flor
vida subjuga a morte
à distância do invisível
bocas entreabrem sabores
licença à troca de ares
espíritos
fusão
possibilidade
vai-se o homem
sobra o riso
gargalha a loucura
exumada
brilhos de olhos
olhos de brilhos
rostos de lírios
lírios de rostos
de todos prefiro
o rosto
anil que emana som
em tom vil
castiga-me ao ter de sonhar
dormindo
pudera sê-la
e respirar tua carne
por dentro
vivaz rubor
abraça o azul venal
pulsa vivo o corpo
desejado
eis que me assume
pelo signo das vestes
significa ou
(des)significa?
amolda
à moda
de mim
encanta o beijo
enfim
delírio
Baudelaire
ópio
nanquim
encerra-se em mim, profusa
mundana castidade em
silêncio ruidoso
plural unidade controversa
meu verso
reflexo
complexo lírico
mais que o bastante e o restante
de mim