Estação Mistério


06/04/2011


AVISO: MUDANÇA

A PARTIR DE AGORA, OS POSTS SERÃO PUBLICADOS EM NOVO ENDEREÇO: http://atrasdajanela.wordpress.com/

Escrito por Rodolfo Araújo às 01h34
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

05/04/2011


o que não se vê do carro

dobrava o papel

mãos lépidas 

intrépidas

tridimensionavam

o papel

faziam os dedos

mais

que

seu papel

dobravam o previsível

dobravam os sinos

dobravam

obtusa

oblíqua

           mente

à guisa da 

lente

do povaréu

dos túneis verdes

do borrão-breu

 

dobrava, calmamente

acariciava o metálico papel

dava-lhe vida

papel com alma

 

pois, diante dos dedos enrugados,

sorria, ébria, a menina

luz em meio aos olhares

perdidos

do vagão

 

 

Escrito por Rodolfo Araújo às 23h17
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

23/03/2011


a ponte

aponte

adiante

a fronte

afronte

adiante

o passo

aponte

a ponta

a cinza

a ponte

o passo

na ponte

a fronte

compasso

afronte

a ponte

de aço

açoite

devora

a noite

explora

açoite

asas

casas

o rio

debaixo

da ponte

o rio

caminho

o tao

o tal

do rio

sinuoso

o rio

curvo

o corpo

o rio

a curva

do ventre 

da ponte

da fronte

o tempo

da têmpora

do pulso

do lusco

do fusco

da noite

da ponte

da luz

ofusco

o músculo

que aperta

a noite

na ponte

contrai

atrai

e trai

na ponte

a noite

as asas

no rio

que some

debaixo

da ponte

no instante

em que dizes

teu nome.

Escrito por Rodolfo Araújo às 22h21
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

22/01/2011


po(h)eresia

ao céu, apenas os escolhidos?

pode ser, lá no alto

algo modorrento

uma chatice

tortas de mesmice

chás de carolice

carolinas caretas

madeleines de proveta

sexo seco

beijo sem fio

amplexos amarelados

longo pavio

maldade travestida de bonança

teorias lançadas à janela

existência formulada

na lógica das chibatas

 

o acaso, as pulsões

a hipocrisia, as paixões

o amorfo, entrecortado

o enredo pouco lapidado

 

a busca distendida

cujo fim já se conhece

não há mais poética prece

que represente salvação

se a resposta derradeira

é um sonoro

cremado

e escavado

não!,

 

melhor abrir os braços

lançar-se, embriagado,

na rotineira escuridão

Escrito por Rodolfo Araújo às 16h18
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

20/01/2011


alimento II

Comê-lo

Loucomêlo

Comilança

Lambocomo

Lambilança

Manicôm(i)o

Mordo.

 

Escrito por Rodolfo Araújo às 15h08
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

17/01/2011


alimento

eu como a vontade de comer 

a vontade de comer, eu como

à vontade, eu como

comer a vontade

como

 

comer-te à vontade, eu como

a vontade de comer-te, eu como

como comer-te à vontade

se a vontade de comer-te eu como?

 

comendo à vontade, como-te

como te comer, a vontade

a vontade de comer-te, como.

Escrito por Rodolfo Araújo às 00h17
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

24/12/2010


quarto

O violino toma conta do quarto, dá alguma vida a esta terra arrasada. São livros por toda parte, uma reunião de lembranças frívolas, anotações carcomidas, cheiros dos mais estranhos, sensações reviradas, como entranhas que deveriam, é sério, ficar ali, quietas e silenciosas na paragem intocável da memória.

 

Não. A poeira sobe, dança com a música e, pois, escapam as reminiscências. As águas calmas da manhã transmutam-se, desenham uma violência prestes a arrebentar nas pedras caso eu pegue o objeto errado, como acabo de fazer.

 

Exumação. Arrumar um quarto, o escritório, tudo. Agora o cadáver está aqui. Seguro, sorridente, feliz por ter retornado, como se me visse depois de anos na rodoviária com aquela malinha puída.

 

Um presente. Amarelado, páginas provavelmente amassadas por uma mala, um idioma que não conheço. Hieróglifo. Uma dedicatória indecifrável. Não há prisão no mundo mais arrebatadora. A prisão da incerteza. É melhor saber logo. Prefiro o corte seco da vil objetividade à condenação desértica a essa interminável pergunta. O ponto de interrogação é sinuoso justamente por ser traiçoeiro, assim como as serpentes.

 

Sabe-se lá que caminho ele tomou, por quantas mãos foi embalado, os raios que pensou até chegar por aqui. Deve ter ouvido muita coisa, eu imagino. Quando sentiu o peso da ponta da caneta – aliás, como seria o tal bolígrafo? – arranhando sua página 3, com certeza percebeu alguma coisa naqueles olhos. Agora, exumado, fica aqui me olhando com essa cara de quem nada vai me dizer. Melancólico. Parece uma ostra.

 

O não-beijo, o bilhete, o temor. Nem uma palavra sobre esses mistérios que batem asas de morcego agora que eu reabro o livro. Ele e suas páginas carcomidas, feito meu quarto. Amassado como um viajante em silêncio. Testemunha ocular cujo silêncio foi comprado por valor inestimável. Ele deve saber de tudo. Afinal, ele sintetiza tudo. O presente.

 

Ele vai ficar ali, sozinho, até que me diga alguma coisa. Mínima, uma coisa.

 

Fiquemos em silêncio, por enquanto.

Escrito por Rodolfo Araújo às 11h15
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

22/12/2010


desfigura

o seu nome sem rosto delira nestas cartas escritas para um interlocutor moldável aos seus anseios. o egoísmo acorda suas noites em vigília, mas é doce. posso enxergá-la daqui, descendo do carro, sumindo na rua mal iluminada, caminhando sobre um rastro púrpura rotineiramente desenhado depois das suas satisfações. você sempre repete suas táticas. costura a teia tão levemente que mal posso ouvir daqui. da distância. seus olhos, minha inominável, jorram o desejo de berrar no meio da rua todas as suas verdades. despir-se dos eufemismos, assumir a imensidão do seu amor próprio, o esplendor da trêmula estima, a inconsciência louca para tomar as rédeas desse trem que, passa o tempo, aumenta, aumenta, aumenta a velocidade. entra pelas rugas, (des)espera. ouve caetano, vedder, roda feito baiana, engole a cólera na finesse dos saltos imaginários. só quer ser poesia, aflorar, de(s)colar, vibrar os membros e relevos na mesma intensidade que o cérebro ordena e refreia.

eu vejo o seu nome sem rosto nestes seus olhos de curiosidade, tão efêmeros que chegam a soar eternos. 

Escrito por Rodolfo Araújo às 13h07
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

20/12/2010


intervalo

Tenho pouco tempo para dizer neste seu abismo, falésia, hiato, suspiro, suspensão. Atividades paralisadas, ônibus rodando sobre esteiras, metrô em marcha à ré, taxistas em recusa geral, prostitutas castas, tiranos afrouxando a guarda, parteiras em recesso por falta de trabalho, maconheiros correndo dispostos, fisiculturistas em preguiça mundana, boêmios pegando cedo a fila do banco, jornalistas atrás das notícias, internet em sinal intermitente de ocupado, celulares mudos, surdos, cegos, imóveis.

 

Esperas são belas depois que passam. Malditas compressões entre o passado imutável e o futuro incontrolável. Expectativa e lamento. Vice. Versa.

 

Esperas são frestas. 

 

Pernas abertas para flores nascerem

ouvidos atentos a outras vozes furtivas

mãos preparadas para relevos não vistos

perfumes inéditos a envolverem o corpo

letras malditas, incêndio do pensamento

versos, telas, projeções

 

entre as notas, a eloquência do silêncio

que faz a música

 

o denso vazio que sucede o gole

a fumaça desenhada pela boca

o pedido de misericórdia aos delírios 

a celebração da intensidade

 

o futuro apunhala pelas costas

e arranca das suas entranhas

um longo suspiro

de

prazer.

 

Escrito por Rodolfo Araújo às 00h47
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

(des)conhecida

Nesta casa bucólico-urbana, tracejada de enrolações barrocas, metida a clássica em seus papeis de parede fajutos, colorida com os pigmentos que agradam aos novos ricos, eu espero. É um lugar repulsivo, embora repleto de delícias. Ela anota meu pedido. A roupa negra deixa à mostra apenas o rosto, já que os cabelos, presos, tentam passar aos clientes uma aura de plena assepsia. Logo os cabelos - essas artimanhas reservadas apenas a elas.

 

Ela preenchia o bloco

 

rápido

 

eu alongava o instante ao falar

d

e

v

a

g

a

r

o branco do bloco

as linhas preenchidas

o vazio do tempo

esvaindo-se na inutilidade

meu pedido

diria realmente quais seriam os meus desejos?

o rosto jovem, as olheiras de quem não dorme

ou se droga

ou ambos

ela me lembrava uma outra pessoa

uma desconhecida em forma de conhecida

um desejo que as fundia

memória sobreposta naquela roupa folgada

curvilínea, curta

ela sorria, imitava o tom de voz da sósia

desconhecida

eu fingia conhecer a desconhecida

queria dizer à desconhecida

tudo que nela conhecia

pela semelhança 

e a distância

 

inventava mais pedidos

distendia o tempo

as letras

as folhas viradas do bloco

os dentes brancos, cansados e simpáticos

sumiram, num estalo.

 

Próximo.

Escrito por Rodolfo Araújo às 00h26
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

23/11/2010


bem comum

emoldura meu rosto a janela carcomida

refletidos nos olhos o anil

a brincar de ritmos com nuvens

soprar ventos carbônicos

brilhar em um degradê

delator das horas

 

o mesmo segundo que me empurra à revelia

passa despercebido por sua mesa

giramos juntos na imensa dança circular

que torna a existência somente 

repetitivarepetitivarepetitivarepetitiva

 

elipses

 

imóvel

involuntárias pulsões

inspiração controlada

sulcos impávidos na face

pupilas congeladas no muro

meu caro horizonte de concreto

 

sobrou-me o céu em comum a nós dois

único ponto a contemplar e reconhecer-me

em um partilhado ambiente

tal como a mesa já tirada

o parque derrubado

a cidade devastada

a cama desfeita

o telefone quebrado

 

relaxo

 

para abrir a porta

e dançar

sobre mais curvas anônimas

suores inodoros

seios nada ambiciosos

ventres irreconhecíveis

quadris malcriados

 

logo o céu desaparece

e a escuridão de outros delírios

quebra, na brevidade dos instantes,

a réstia azul que nos faz

iguais.

Escrito por Rodolfo Araújo às 20h14
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

20/11/2010


pintura

toda morte noturna acaba

nela prolongo, estico o tempo

brincando com os segundos como se fossem fogo

certo da chamusca, louco pela busca

 

a linha é reta, asfáltica, aponta para baixo

caminho feito equilibrista entre as rachaduras

simbólicas aberturas do inconsciente

lacunas de noites mal dormidas

ou de um dolce far niente

 

assoviando canções em reflexo

misturando os luminosos em neon

aspirando as nuvens turvas das casas

devolvendo passos rápidos

ao tempo que me empurra

 

para baixo.

 

eu nunca vi seu rosto em sonhos

lembro-me, apenas, da pinta

vizinha do olho

embora nunca tivessem falado

a pinta, gota de tinta ao acaso

naquela obra um tanto inatingível

passível de vislumbrar na doce amplidão

da embriaguez

 

em linha reta, para baixo

o caminho expande-se, traga-me

traga-me a ela, eu suplico

entre as cervejas, espumas sorridentes

aparece-me a dita

estática, profana, charmosa, noctívaga

nada como uma pinta facial

mais erótica que um seio à mostra

confessionária como beata enganosa

suplicante por alguém de coragem

 

minha linha, reta e para baixo, cessa

sobra-me olhar para aquelas mesas

o dinheiro rareia nos bolsos

uma camisa melhor naquele momento

penso

penso

penso

mergulho num pensar delirante

beijo as chamas do inferno mais próximo

entro

 

a pinta, meu big bang, o graal de todos os cristos

o leitmotif das óperas vindouras

o esperanto da beleza humana

a pinta, vizinha muda do olho

tão gritante em sua discrição

de vestir negro no dia e na noite

a pinta, cada vez mais próxima,

ao encontro das mãos trêmulas

a pinta

poema concreto em pele branca

erro divino, ode ao wabi-sabi

relevo mínimo onde me acabaria

desapareceria

como eu e ela fizemos

no torpor

na escuridão.

Escrito por Rodolfo Araújo às 11h23
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

17/11/2010


a menina e a cidade

linha obtusa, eletrocardiogramática

contorno de um céu impuro, de tosse

densa névoa que seu corpo recobre

acompanha, em sombra laranja, o caminhar

 

o charuto perde a brasa

maridos trôpegos a apagarem

o fogo das putas

senhoras a cerrar a bíblia

e varrer da memória 

as poeiras do tempo nefasto

 

Mulheres interrompem o coito do sonho vigilante

crianças perdem-se na virtualidade do dia

o feirante adormece, perfume de fruta

assovia lento o taxista enquanto cruza

a moçadossonhosdaquelesegundo.

 

o gari acarinha o meio-fio

dança sua fosforescência anônima

cruza o executivo em sua farda 

prestes a ser abocanhada pelo amigo da loja

 

os ônibus, as motos, os carros

fumam-se como famintos viciados

bailam à beira do asfalto

junto a estudantes pelegos

e outros tantos largados

 

borrada pela míope noite

vai-se embora a menina

nos seus xadrezes encadernados

a buscar, no semblante do vácuo urbano

um pingo de poesia.

 

Escrito por Rodolfo Araújo às 17h49
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

16/11/2010


do nome

Não há nada mais persecutório do que um nome

Breve conjunto de letras a carregar responsabilidade imensa

Deve ser musical, escorrer pela língua facilmente

Curto e grosso

Entre os primeiros na chamada escolar

Suficientemente belo para não ser chacota

Direto o bastante para quem vê o rosto
e ele nota.

 

O nome, ao sintetizar um ser,

Poliniza-se de significados

Amplia-se num espectro de desventuras e sabores

Odores e amores

Memórias

Dores

 

Persegue, escancara as pernas de passados

Abre os baús mórbidos do já sepultado

Estampa nos olhos as envelhecidas cenas

 

Há o risco: por todas as partes

Num livro aberto

Numa conversa no ponto de ônibus

No celular, por engano

Lá ele pode estar

Num rascunho,

Numa lousa mal apagada

Num louco a gritar pela rua

Num muro grafitado

Numa peça, num filme

Onde não se pode esperar

 

Vem o nome, este perseguidor

Este algoz, desnuda as neuras que pensamos curar

Põe abaixo a mais exitosa terapia

E nos joga à sarjeta

Para beber, brindar e saudar

A involuntária faculdade de amar

Escrito por Rodolfo Araújo às 16h56
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

17/08/2010


alvanuvem

como branca nuvem, efêmera

lépida ao sabor de um vento-repente

sádica lufada extemporânea

gélido sopro ao pé do ouvido

ar centrifugado em turbinas

decola, preciso, no ar

 

e lá se vai minha alva

com quem viveria há dois séculos

por quem destilaria ópios e venenos

para morrer em francês, lírico,

sereno

 

a obtusidade do olho oculto

pela curva dos cabelos sobre a face

encobre indeléveis verdades

destitui dos tempos e espaços

toda base

 

brota do infértil concreto

da aragem de cinzas

dos silêncios de sepulcro

das provocações ardilosas

e suspiros-enigmas, fugidios

 

eis que o tempo, ainda que exíguo

capaz de prolongar os mais desérticos sofreres

traz-me a branca nuvem, poética, letrada

flutuante nas notas que dedilha

inconstante nos arroubos de falácias

estonteante

a cada passo

que dá

 

parou todos os sóis

fez do dia larga vigília

sonhos de carne e osso 

ao som das folheadas

à luz dos perfumes, 

da cafeína

dos dedos (cheios)

de anéis

dos dedos (cheios)

de dedos

 

horizonte arenoso, abraços frios

vem ao meu destino em sépia a branca nuvem

ela vem rápida, sagaz, travestida de menina

traz a sombra imensa e, ao mesmo tempo,

a saudade

densa

 

e a nuvem vai

em turbilhões, turbinas

lá vai a menina

inesperada

de volta

 

e ficam aqui: poetas, atores, desamores

a esperar fixamente, na vil e profunda distância

a volta.

Escrito por Rodolfo Araújo às 23h39
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Perfil



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, Homem, de 26 a 35 anos

Histórico